quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Suspirar leve

(tradução de Diego Moschkovich)

No cemitério, sobre um túmulo de terra fresca há uma nova cruz de carvalho, forte, pesada e envernizada.

Abril de dias cinzentos; as lápides do cemitério - enorme, municipal – podiam ser vistas de longe, através das árvores nuas, o vento gelado soprando e uivando como se fosse uma coroa de porcelana tilintando sob os pés da cruz.

Nesta mesma cruz pendurado há um grande medalhão, roliço, cunhado em porcelana. Nele - o retrato fotográfico de uma ginasial de olhos alegres, surpreendentemente vivos.

É Ólia Mechêrskaia.

Ainda como menina ela não se diferenciava em nada da multidão dos vestidinhos marrons ginasiais: o que é que se poderia dizer sobre ela além do fato de que era mais uma na lista das boas, ricas e felizes meninas? Que era inteligente e ao mesmo tempo travessa: do tipo das bem descuidadas com quaisquer instruções passadas pela tutora de classe. No entanto, Ólia repentinamente começara a desabrochar, a se desenvolver, não através dos dias, mas através das horas. Aos catorze anos já se delineavam, junto com a cintura fina e as pernas firmes, peito e formas tão apaixonantes que nem as palavras humanas foram ainda capazes de descrever; aos quinze anos já possuía reputação de verdadeira beldade.

Algumas de suas amigas se penteavam cuidadosamente, eram asseadas e sempre se preocupavam em manter contidos seus gestos e poses. Ólia não temia nada. Nem de manchar os dedos com tinta de escrever, de enrubescer de repente, de aparecer com os cabelos desgrenhados e mesmo de ter o joelho descoberto ao cair durante uma corrida. E assim, sem esforço próprio algum foi que ela começou a entender aquilo que nos últimos anos a diferenciava tanto do resto das meninas do ginásio: sua refinação, elegância, languidez e o claro brilho de seus olhos... Ninguém dançava nos bailes como Ólia Mechêrskaia, ninguém corria tanto sobre patins, ninguém ganhava tantos flertes nos bailes como ela, e por alguma razão ninguém era tão amada pelas classes mais novas. Se tornara desapercebidamente uma garota, e da mesma forma desapercebida abrandou a sua fama de ginasiana travessa, e começaram-se a ouvir boatos de que ela era leviana, de que não conseguia viver sem admiradores, que estaria terrivelmente apaixonado por ela o estudante Shênshin, e que ela podia até amá-lo reciprocamente, mas era tão mutável ao relacionar-se com ele que o menino acabara por tentar o suicídio.

No último inverno Ólia Mechêrskaia havia ficado completamente louca de alegria, como disseram pelo colégio. Era um inverno com muita neve, ensolarado, congelante, no qual o sol se punha cedo atrás do pinheiro do jardim coberto de neve do ginásio, invariavelmente sereno, irradiante e prometedor de mais sol e e mais frio para o dia seguinte. Prometedor também de passeios pela rua da Igreja, de patinação no gelo no jardim municipal, de um crepúsculo cor-de-rosa, música, e da multidão patinante no lago, da qual Ólia Mechêrskaia parecia a mais despreocupada e a mais feliz. E então um belo dia, na hora do intervalo, enquanto ela passava como um turbilhão pelo corredor entre as classes, fugindo das meninas do primeiro ano que a perseguiam gritando alegremente, foi chamada para a diretoria. Parou imediatamente, deu uma respirada profunda, arrumou os cabelos num único, rápido e já costumeiro gesto feminino, endireitou os suspensórios sobre os ombros e luzindo os olhos subiu as escadas. A diretora, jovem porém grisalha, sentava-se calmamente com um novelo de lã e agulhas de tricô em mãos, imóveis acima da escrivaninha, embaixo do retrato do czar.

- Bom dia, mademoiselle Mechêrskaia, - disse ela em francês, sem tirar os olhos do tricô. - Infelizmente já não é a primeira vez que tenho que chamá-la aqui para conversar com a senhorita sobre o seu comportamento.

- Estou escutando, madame, - respondeu Mechêrskaia, indo até a mesa e olhando para a diretora clara e vividamente, sem qualquer expressão facial, e em seguida sentando-se leve e graciosamente da maneira com que só ela era capaz.

- Mas o fato é que a senhorita me escuta mal, e disso eu estou plenamente convencida, - disse a diretora, e, puxando a linha, fez um arremate. Deixando o tricô e as agulhas na cesta, levantou os olhos. - Eu não vou me repetir e nem vou me alongar demais. - disse.
Mechêrskaia gostava demais daquela sala extraordinariamente grande e limpa, que nos dias de frio cheirava tão bem ao calor da lareira acesa e dos lírios-do-vale sobre a mesa. Olhou para o jovem czar, desenhado em toda a sua altura no meio daquela sala esplendorosa e exatamente alinhado com os cabelos algodoados e delicadamente arrumados da diretora. Esperava em silêncio.

- A senhorita já não é mais uma menina, - disse a diretora com segundas intenções, secretamente começando a perder a paciência.

- Sim, madame – respondeu Mechêrskaia num tom simples, quase alegre.

- Mas também ainda não é uma mulher, - disse ainda mais significativamente a diretora, corando levemente seu rosto fosco. - Antes de mais nada, que penteado é esse? É um penteado de mulher!

- Não tenho culpa, madame, de ter cabelos bonitos – respondeu Mechêrskaia, quase tocando com as duas mãos a cabeça lindamente arrumada.

- Ah, não é culpada! - disse a diretora. - Claro que a senhorita não é culpada do penteado, não é culpada destas presilhas caríssimas, não é culpada de que devasta aos seus próprios pais pedindo sapatos de vinte rublos! Vou repetir: a senhorita está se esquecendo completamente de que é ainda apenas uma ginasiana...

E então Mechêrskaia, sem perder a simplicidade e a calma interrompeu repentinamente a diretora:

- Desculpe madame, a senhora está enganada: eu sou mulher. E sabe quem é o culpado disto? O amigo e vizinho do meu pai, seu irmão Alexêi Mikhaílovich Maliútin. Aconteceu no verão passado no campo...

Exatamente um mês depois de tal conversa, um oficial de quartel, nada bonito e de aparência praticamente plebeia, não possuidor de absolutamente nada em comum com o círculo de pessoas ao qual pertencia Ólia Mechêrsaia, a matou com um tiro na plataforma da estação de trem no meio de uma multidão de pessoas que acabara de sair da locomotiva recém estacionada. Incrivelmente, então, a desconcertante declaração de Ólia Mechêrsaia para a diretora se confirmou perfeitamente: o oficial dissera depois, em frente ao juiz, que Ólia Mechêrsaia o havia enfeitiçado, se aproximado dele e que inclusive prometera se tornar sua mulher. E na estação, no mesmo dia do assassinato, acompanhando-o até o trem que o levaria a Novocherkássk, virou e disse inesperadamente que não havia jamais pensado em amá-lo, que todas aquelas conversas sobre casamento não passavam de pura chacota e em seguida deu para que lesse as páginas de seu diário onde escrevera sobre Maliútin.

- Ei li as páginas ali mesmo, na plataforma. Ela ficou andando de um lado para o outro enquanto eu não acabei de ler e atirei nela, - disse o oficial. - O diário, vejam, está aqui, escutem o que estava escrito nele no dia dez de julho do ano passado. Diz o seguinte: “Já são duas da madrugada. Eu adormeci pesadamente, mas acabei de acordar... Me tornei uma mulher! Papai, mamãe e Tólia foram para a cidade e eu fiquei aqui sozinha. E fiquei tão feliz de estar sozinha! De manhã andei pelo jardim, pela campina, fui até o bosque, e tinha impressão de que era a única pessoa em todo o mundo, e pensei que me sentia melhor do que nunca me sentira antes em toda a minha vida, Almocei sozinha e depois toquei piano por uma hora inteira, e a música me deu a impressão de que eu poderia viver eternamente e ser mais feliz do que qualquer outra pessoa. Depois adormeci no escritório de papai, e às quatro horas Kátia me acordou, dizendo que Alexêi Mikhaílovich tinha chegado. Eu fiquei muito feliz, foi tão prazeroso recebê-lo e fazer sala para ele. Ele estava vestindo seu par de botas, muito bonitas, e deixou elas o tempo inteiro na entrada. Ele foi ficando porque começou a chover e ele queria que parasse para poder ir embora seco. Ficou chateado de não ter encontrado papai, foi muito alegre e sempre me tratou como um cavalheiro, fez muitas brincadeiras, disse que já estava há muito tempo apaixonado por mim. Quando nós saímos para passear antes do chá pelo jardim o tempo já estava maravilhoso, o sol brilhava através do jardim molhado, e fazia bastante frio. Ele me levava pelos braços dizendo que éramos Fausto e Margarita. Ele já tem cinquenta e seis anos, mas ainda é muito bonito e anda sempre muio bem vestido – a única coisa que não me agradava é aquela capa que ele sempre veste – cheira à agua-de-colônia inglesa, tem os olhos muito jovens, negros, e divide a barba refinadamente em duas partes compridas e perfeitamente prateadas. Sentamo-nos para o chá na varanda de vidro, e eu comecei a me sentir como se estivesse passando mal e fui deitar-me no divã enquanto ele fumava, e depois veio sentar-se comigo, começou a me dizer coisas bonitas, e depois a olhar e a beijar a minha mão. Eu cobri o rosto com um lenço de seda e ele me beijou algumas vezes na boca através do lenço... Eu não lembro como é que pode ter acontecido, nunca tinha pensado que eu fosse capaz dessas coisas! Agora só me resta uma saída… Estou sentindo um desgosto tão grande por ele que não consigo nem pensar!”

Durante os meses de abril a cidade fica limpa, seca, e tem as as pedras caiadas, ficando muito fácil e agradável andar pelas ruas. Todo domingo depois do almoço, desponta pela rua da Igreja que leva até o fim da cidade um pequena senhora de luto, com luvas pretas de pelica e um guarda-chuva de madeira preta. Ela atravessa o caminho da praça lamacenta, de onde se ouvem muitos grilos cantando e se sente o ar fresco do campo soprar. Em seguida, entre o monastério masculino e a cadeia vê-se reluzir a capa de nuvens do céu e o campo primaveril a secar. Depois ela cautelosamente evita as poças de água formadas aos pés das paredes do monastério e vira à esquerda, de onde se pode ver um enorme jardim rasteiro, circundado por uma cerca branca sob a qual se vê escrito: “Cemitério de Nossa Senhora”. A pequena senhora faz um sinal-da-cruz e continua a andar costumeiramente pela alameda principal. Chegando ao banco em frente à cruz de carvalho ela se senta ao vento no frio da primavera durante uma hora inteira, duas, até que comecem a congelar seus pés dentro dos sapatos leves ou suas mãos envoltas na pelica fina. Escutando os pássaros primaveris, que são capazes mesmo de cantar no frio, escutando o silvar do vento no medalhão de porcelana ela às vezes pensa que seria capaz de trocar metade de sua vida para que não tivesse diante de seus olhos este medalhão, esta cruz. Maldito tubérculo, esta cruz de carvalho! Seria mesmo possível que debaixo dela estivesse aquela da qual os olhos brilhavam eternamente na gravura do gordo medalhão de porcelana, e mais, como ligar àquele olhar puro tudo de terrível que agora carregava o nome de Ólia Mechêrskaia? - Mas no canto mais profundo de sua alma a pequena senhora estava feliz, feliz como são todas as pessoas que se entregam à alguma espécie de desejo apaixonado.

Esta senhora é a bedel da classe de Ólia Mechêrskaia, mulher já não jovem, e há muito entregue a uma ou outra ficção que acaba por substituir-lhe a vida real. Primeiro a ficção era o seu próprio irmão, um soldado feio e nada notável. Ela fundira nele toda sua alma, o seu futuro, que por alguma razão lhe parecia brilhante. E quando foi morto na cidade de Mukden, se convenceu de que seria uma servidora das ideias. A morte de Ólia Mechêrskaia acabara por terminar com seu novo sonho. Ólia Mechêrskaia se convertera assim em objeto de seus pensamentos e sensações inatingíveis. Em todo feriado ela vai até o seu túmulo, e durante horas não tira os olhos da cruz de carvalho, lembrando-se do rosto pálido de Ólia Mechêrskaia no caixão, em meio às flores. E se lembra também de algo que ouvira uma vez, na hora do intervalo, andando pelo jardim do colégio: Ólia Mechêrskaia dizia rapidamente para sua melhor amiga, a roliça e alta Subbôtina:

- Eu li num dos livros do meu pai – ele tem muitos livros velhos muito engraçados – como deve ser a beleza de uma mulher... Sabe, tinha tanta coisa escrita que nem dá para lembrar de tudo, mas claro, tem que ter olhos pretos ardentes como breu, juro por deus, escrito assim mesmo: ardentes como o breu! - cílios negros como a noite, bochechas levemente coradas, uma cintura fina, mãos delicadamente longas – entende, delicadamente longas! - pernas pequenas, peito proporcionalmente grande, ventre redondo, joelhos cor de porcelana, ombros definidos – eu decorei um tanto, achei tão verdadeiro! - mas o mais importante era sabe o quê? - Saber suspirar leve! É o que eu tenho, - ouça como eu suspiro – verdade, não é?
E agora este suspirar leve havia se dissipado no mundo, com o céu nublado, com o vento frio da primavera.

--1916.

Um comentário:

Priscila disse...

Esse conto está traduzido pelo Paulo Bezerra em "Psicologia da arte" de Vigotski. Vc já viu? Ele optou por traduzir o título como "Leve alento". Me pareceu interessante. O que você acha?