sábado, 27 de novembro de 2010

O sol, o velho e a menina.

tradução de Diego Moschkovich


Os dias queimavam como fogo branco. A terra estava quente e as árvores também estavam quentes. A grama seca arranhava sob os pés.

Apenas de noitinha é que ficava fresco.

Então, na beira do riacho Katuni aparecia um antigo velhinho e sentava-se sempre no mesmo lugar - numa raiz - e olhava para o sol.

O sol se punha atrás das montanhas. À tarde ele era enorme, vermelho.

O velho se sentava imóvel. As mãos nos joelhos - da cor da terra, secas, cheias de terríveis rugas. O rosto era também enrugado, os olhos, úmidos e embaçados. Tinha o pescoço fino, a cabeça pequenina, branquinha. Por debaixo da camisa azul de chita sobressaíam-se escápulas pontiagudas.

Um dia, enquanto estava sentado, o velho ouviu uma voz atrás de si:

- Com licença, vovô!

O velho virou a cabeça.

Ao seu lado sentava-se uma menina com uma maleta estufada nas mãos.

- Você está descansando?

O velho novamente virou a cabeça.

- Estou descansando.

Não olhou para a menina.

- Posso te desenhar? - ela perguntou.

- Como assim? - não entendeu o velho.

- Fazer um retrato seu.

O velho por um tempo calou, olhou para o sol, piscou com suas pálpebras avermelhadas e sem сílios.

- Mas eu já não sou mais bonito - disse ele.

- Por quê? - a menina se confundiu um pouco. - Não, você é bonito sim, vovô.

- E ainda por cima doente.

A menina olhou longamente para o velho. Depois acariciou com palmas suaves sua mão seca e cor de terra. Ela disse:

- Você é bem bonito, vovô. De verdade.

O velho riu fraquinho.

- Então desenha, já que é assim.

A menina abriu a maleta.

O velho tossiu nas mãos.

- Da cidade, certamente. - perguntou ele.

- Da cidade.

- Pelo visto te pagam por isto?

- De vez em quando sim. Se faço bem, pagam.

- Então precisa se esforçar.

- Eu me esforço.

Silêncio.

O velho ainda olhava para o sol.

A menina desenhava, olhando para o rosto do velho de lado.

- Você é daqui, vovô?

- Daqui.

- E nasceu aqui?

- Aqui, aqui.

- E agora, quantos anos?

- De idade? Uns oitenta.

- Puxa!

- Bastante, - concordou o velho, soltando outro riso fraquinho. - E você?

- Vinte e cinco.

Silêncio de novo.

- Olha que sol! - baixinho exclamou o velho.

- Que sol? - não entendeu a menina.

- Gigante.

- Ah... é. É bem bonito aqui.

- E a água olha lá, vê... naquela margem ali...

- É, é.

- Parece que misturaram sangue.

- É. - a menina olhava para a margem. - É.

O sol tocara o cume do Altai¹ e começara a se esconder no distante mundo azul. E o quanto mais fundo ele descia, o mais nitidamente se delineavam as montanhas. Como se elas se movessem. No vale - entre o rio e as montanhas - quietamente se apagava o crepúsculo carmim. E tocava as montanhas uma calma e pensativa sombra. Então o sol se escondeu completamente atrás da corcunda do Buburkhão, e na mesma hora disparou no céu esverdeado um arco de vivos raios cor de laranja. O arco se mantivera por um momento - e quietamente apagou. No céu do outro lado começava a chamejar o crepúsculo.

- Se foi o nosso solzinho, - suspirou o velho.

A menina guardava as folhas na pasta.

Por algum tempo ficaram sentados apenas assim, ouvindo como as pequenas ondas apressadas quaravam nas margens do riacho.

Nas colinas a neblina se formava em grandes tufos.

No bosque, não muito ao longe, timidamente gritou algum pássaro noturno. E ouviu-se a resposta volumosa que veio da margem, do outro lado.

A menina pensava em como quando ela voltasse para sua longínqua e querida cidade, traria muitos desenhos. Entre eles, o retrato daquele velhinho. E seu namorado, desenhista de verdade, imediatamente iria se irritar: "Rugas, de novo! Para quê? Todo mundo sabe que na Sibéria o clima é árido e que as pessoas lá trabalham muito. E daí? O que mais?"

Ela sabia que não era muito talentosa. Mas vê, ela pensava na vida difícil que vivera aquele velho. Que mãos as dele! Rugas, de novo!

"É preciso trabalhar, trabalhar, trabalhar..."

- Você vem amanhã de novo, vovô? - perguntou ela ao velho.

- Venho. - respondeu este.

A menina se levantou e partiu para a aldeia.

O velho continuou sentado ainda mais uns instantes e depois também partiu.

Ele chegou em casa, sentou-se em seu cantinho, ao lado do forno e esperou quieto, - o momento em que chegaria do trabalho seu filho e em que sentariam-se para jantar.

O filho chegava sempre cansado, descontente com tudo. Sua noiva também, sempre estava descontente com tudo. Os netos haviam crescido e ido para a cidade. Sem eles a casa era angustiante.

Sentaram-se para o jantar.

Esfarelaram pão no leite para o velho e ele bebeu, sentado na beiradinha da mesa. Cuidadosamente tilintava a colher no prato, esforçando-se para não fazer barulho. Silêncio.

Depois se recolheram para dormir.

O velho se deitou aos pés do forno, e o filho com a noiva foram para o quarto. Silêncio. Falar sobre o quê? Todas as palavras já haviam sido ditas há muito.


Na próxima tarde o velho e a menina mais uma vez se sentavam na margem, perto da raiz. A menina desenhava apressadamente e o velho observava o sol e contava:

- Nós vivemos sempre direito, seria um pecado reclamar. Eu era forte, sempre tive trabalho suficiente. E meus filhos também eram fortinhos. Muitos morreram na guerra - quatro. Sobraram dois. E é com um deles que eu moro agora, com o Stepán. O Vánka mora na cidade, em Bíisk. Trabalha de pedreiro na construção civil. Ele me escreve: nada de mais, vivem bem. Vieram para cá, fizeram uma visita. Netos tenho de monte. Me amam. Estão espalhados pelas cidades, agora...

Ela desenhava as mãos do velho, apressada, nervosa, apagando frequentemente.

- E era difícil viver? - perguntou ela sem ter ouvido.

- Difícil o quê? - se espantou o velho. - Eu acabei de te dizer que a gente vivia bem.

- Não teve pena dos seus filhos?

- E como não? - se espantou mais uma vez o velho. - Enterrar quatro deles... é brincadeira, por acaso?

A menina não compreendia. Ou sentia pena do velho, ou então estava muito espantada com sua extrema calma e tranquilidade. E o sol mais uma vez se pusera atrás das montanhas. E de novo quietamente queimava o crepúsculo.

- Tempo ruim vai fazer amanhã - disse o velho.

- Por quê?

- Me dói tudo por dentro.

- Mas o céu está limpíssimo.

O velho calou.

- Você vem amanhã, vovô?

- Não sei, - não imediatamente respondeu o velho. - Alguma coisa me dói tudo por dentro.

- Vovô, como é que se chama esta pedra?- A menina tirou do bolso da jaqueta uma pedrinha branca com tons dourados.

- Qual? - perguntou o velho, continuando a olhar para as montanhas.

A menina lhe estendeu a pedra. O velho, sem se virar, tocou-a com as mãos.

- Esta? - perguntou ele, passando o olhar pela pedra, passando-a por entre os dedos secos e retorcidos. - É pepita isso. Na guerra, quando o fósforo acabava, era com isso que se acendia o fogo.

E uma curiosidade estranha tomou conta da menina: lhe parecia que o velho era cego. Ela não encontrou imediatamente sobre o que falar, calava, olhava de lado para o velho. E ele olhava lá para onde o sol se punha. Calma e pensantemente olhava.

- Pega aqui, a pedrinha. - disse ele e estendeu a pedra à menina. - E tem de diferentes formas também. Tem uma tão branca que brilha, com uns pontinhos por dentro. Também tem uma que é como um ovinho, não dá para saber a diferença. Tem outra que se parece com um ovo de gralha, com listrinhas dos lados, e outras que se parecem com ovo de pardal, azulzinhas, também com pintinhas.

A menina olhava para o velho e não se decidia perguntar se ele era cego ou não.

- Aonde você mora, vovô?

- Aqui pertinho. Aquela é a casa de Ivan Kolokólnikov, - o velho mostrava a casa na margem do rio. - Depois, a dos Bedárev, depois a dos Volokítin, a dos Zinovév e ali na curvinha - a nossa. Apareça, se precisar de alguma coisa. Quando moravam os netos, aí era tudo bem alegre.

- Obrigada.

- Eu me vou. Me dói tudo.

O velho se levantou e partiu pela trilha pela montanha. A menina o observou até o momento em que ele sumiu na curva. Ele não batera nenhuma vez, não tropeçara nenhuma vez. Andava devagar e olhava para os pés.

"Não, não é cego", entendeu a menina. "Só tem a visão fraca."

No dia seguinte o velho não apareceu. A menina se sentara sozinha, pensando nele. Tinha algo na vida dele, tão simples, tão comum que não era nada simples, grande, significativa. "O sol, também, simplesmente nasce e se põe" pensava ela. "Como se fosse simples!" E ela olhou fixamente para seus desenhos. E se entristeceu.

O velho também não apareceu no terceiro e nem no quarto dia.

A menina resolveu ir procurar sua casa.

Encontrou.

No jardim da casa de cinco paredes, coberta com telhado de metal, num canto sob um dossel, um homem adulto de uns cinquenta anos talhava numa bancada uma tábua de pinho.

- Com licença. - disse a menina.

O homem se endireitou, olhou para a menina, arrastou o dedo maior sobre a testa suada e acenou.

- Oi.

- Me diga, por favor, é aqui que vive um vovozinho...

O homem olhou para a menina atenciosamente e meio estranho. Ela calava.

- Morava. - disse o homem, - Esse é o caixão que estou construindo para ele.

- Ele morreu, foi?

- Acabou de morrer. - e o homem de novo se curvou em direção à tábua, raspou mais algumas vezes com o aplainador e depois olhou para a menina. - E você queria o quê?

- É que eu estava desenhando ele...

- Ah... - e o homem bruscamente raspou o aplainador.

- Me diga, por caso ele era cego? - perguntou a menina depois de longo silêncio.

- Cego.

- Fazia tempo?

- Uns dez anos. Por quê?

- Nada...

A menina saiu do quintal.

Na rua se encostou na cerca e chorou. Sentia pena do vovô. E sentia pena pois ela não havia conseguido de forma nenhuma desenhá-lo. Mas ela sentia agora algum sentido e um segredo mais profundos nas vidas e feitos dos homens, e sem mesmo entender, se tornara um pouco mais adulta.

Um comentário:

Priscila disse...
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